caravaggio, chagall e isaque

Posted in Uncategorized by teologarte.com.br on 04/09/2009

(caravaggio, chagall and the sacrifice of isaac)


Passado algum tempo, Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: “Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui”. Então disse Deus: “Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei”.
– Bíblia, livro de Gênesis, cap. 22, v. 1-2

Com os versículos acima começa a narrativa do teste ao qual Deus submeteu a fé do patriarca hebreu Abraão (confira abaixo a continuação do texto). No capítulo 12 de Gênesis, Deus faz uma aliança com Abraão, escolhido para ser o pai de um grande povo que abençoaria todas as nações da terra. Abraão deixa a cidade de Ur, na Babilônia, e parte com sua família para Canaã, a terra prometida pelo Senhor. Apesar da idade avançada de Abraão e de Sara, sua mulher, Deus repete, no capítulo 15, a promessa de que a descendência de Abraão seria tão numerosa quanto as estrelas do céu. Cheios de dúvidas e com o tempo passando, Abraão e Sara tentam resolver o problema por seus próprios meios, e Abraão tem um filho, chamado Ismael, com sua serva egípcia Agar. Mas Deus reafirma a promessa de que a própria Sara conceberia, e finalmente, no capítulo 21, depois de muitas incertezas e dificuldades, ela dá à luz a Isaque, o filho da promessa. É nesse contexto dramático que Deus resolve pôr à prova a fé de Abraão.

A história do sacrifício de Isaque serviu de inspiração para inúmeras obras de arte através dos séculos. Neste artigo, vamos analisar como Caravaggio e Chagall, dois pintores de épocas e escolas artísticas diversas – dois homens com temperamentos, questionamentos e buscas diferentes – perceberam e representaram visualmente o mesmo texto bíblico. A narrativa de Gênesis já possui grande dramaticidade, e as pinturas que vamos observar podem ampliar nossas possibilidades de apreciação e compreensão da história.

 

Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1603

Caravaggio (1571 – 1610), grande artista do barroco italiano, representa o texto em tom realista e com luz teatral, que é a marca de seu estilo pictórico. Seus personagens são dotados de intensa expressividade corporal. O recorte fotográfico e quase documental do acontecimento nos leva a participar da cena de Caravaggio. A pintura é como uma porta que nos convida a entrar e viver o drama de Abraão e Isaque. Podemos sentir o terror vivido pelo filho prestes a ser sacrificado pelo pai decidido. Quase ouvimos o que diz o anjo quando impede Abraão de seguir com seu plano ao apontar para o cordeiro, que aparece próximo a Isaque, e que Deus havia mandado para que fosse realmente sacrificado. Caravaggio recorta a cena como numa lente de aumento e nos leva para um ambiente intimista. Ele nos transporta ao momento mais delicado da narrativa de Gênesis e nos faz estar presentes na solidão de Abraão. O artista usa de sua sofisticada técnica de retrato, da variedade de tons marrons e terrenos para nos aproximar do acontecimento, trazendo-o para a vida real.

Caravaggio, Sacrifício de Isaque, 1603, óleo sobre tela, 104 x 135 cm, Galeria Uffizi, Florença, Itália

Há movimentos decididos nos gestos de cada personagem, quase ouvimos o que dizem, sabemos o que pensam, sentimos a frescor da mata. Caravaggio é impecável em nos fazer participar da narrativa bíblica e nos convida a entrar na história. Os personagens criados pelo pintor são dotados de grande humanidade, não há diferença na forma de representação de Abraão, Isaque e o anjo – de quem esperaríamos uma expressão mais divina. É interessante perceber que para representar a voz de Deus que fala a Abraão, Caravaggio pinta um anjo muito próximo fisicamente de Abraão e que, ao segurar seu braço – detalhe que não aparece no texto -, enruga a pele do patriarca judeu. O Isaque proposto pelo artista grita, se revolta, sente medo. Vale lembrar que Caravaggio estava a serviço da igreja católica, que neste período investia numa arte que surpreendesse as pessoas com sua forte relação com a realidade e trouxesse de volta os fiéis que estavam ainda confusos com as novas propostas da reforma protestante.

 

Marc Chagall, 1966

Já o quadro pintado por Chagall (1887 – 1985), pintor russo de família judia, dono de um traço infantil e puro, nos faz viver uma dimensão mais espiritual do texto. Ele não pinta uma única cena, mas as várias dimensões da narrativa. Usando formas simples e cores primárias, Chagall pinta com grande sofisticação simbólica. Seu quadro parece sonho, imaginação mais do que um acontecimento real. Algo vivido pela alma. No primeiro plano, com maior definição e luminosidade, Chagall representa o acontecimento principal do texto, quase uma ilustração da história. A peculiaridade de sua obra está nas imagens que circundam essa cena – a crucificação de Jesus e vários outros personagens – e que aludem ao significado mais amplo do texto. O movimento do quadro é cíclico e musical, como se nos conduzisse às várias etapas de uma narração de forma suave e ritmada. Chagall também se preocupa com pequenos detalhes do texto, como o cordeiro perto da árvore, que Deus havia mandado para ser sacrificado no lugar de Isaque, ou a lenha que ele havia “colocado em ordem”(v.9) sob o corpo do filho passivo. Cada cantinho da tela é rico de significado e apresenta diversas possibilidades de interpretação. Temos a impressão de que o artista é tocado pela mensagem do texto bíblico e quer representá-la da forma mais completa possível.

Marc Chagall, O Sacrifício de Isaque, 1960-1966, óleo sobre tela, 230 x 235 cm, Museu Nacional Mensagem Bíblica Marc Chagall, Nice, França

Chagall não se encaixou em nenhum movimento artístico de sua época. Foi influenciado por diferentes estilos pictóricos, como cubismo e surrealismo, mas desenvolveu um trabalho extremamente pessoal e de grande riqueza emotiva. Chagall representa em sua obra um filho obediente, assim como o pai que cumpria uma ordem de Deus. Um tema dramático, uma narrativa intrigante, uma pintura rica de beleza. Ao lado da árvore vemos uma mulher, será que Chagall pinta o sofrimento de Sara frente à iminente morte de seu único filho? O céu dinâmico e em movimento retrata a voz audível de um Deus presente, que reconhece a fidelidade de seu servo e o abençoa. Com sua pintura gestual e aparentemente ingênua, o artista nos convida, mais do que à contemplação ou à participação cênica, a uma experiência do coração.

 

Duas leituras complementares da Bíblia

Podemos dizer, de certo modo, que Caravaggio ilustra e Chagall interpreta a passagem bíblica. Com Caravaggio, somos transportados para o contexto original da narrativa, sua representação relativamente mais objetiva e racional do texto busca ser fiel à intenção do autor e nos aproxima da realidade vivida pelos protagonistas. Chagall trata o tema de forma diversa, é impactado pelo texto de forma mais pessoal e subjetiva, aplica o texto à sua própria vida e retrata não tanto o que foi vivido pelos personagens quanto a sua própria reação emocional à história. As abordagens dos dois artistas correspondem a duas formas complementares de ler a Bíblia. Uma das regras básicas da interpretação bíblica é que devemos buscar conhecer as circunstâncias em que o texto foi escrito, a fim de descobrir o significado original que o autor queria transmitir naquele contexto histórico-cultural específico. Mas não basta entender o texto racionalmente. É preciso trazê-lo para nossa realidade pessoal e deixar que a verdade bíblica nos toque e faça diferença em nossa vida. Os dois mestres da pintura nos levam a viver a narrativa bíblica de forma mais profunda e invadida de beleza. Ao nos aproximarmos do drama de Abraão com a mente e com o coração, reconhecemos a nós mesmos e descobrimos um Deus que nos desafia, nos ama, espera de nós obediência e se faz presente na angústia.

– Rosana Faria Basile Pinto
agosto de 2009

 

Como termina a história?


Caravaggio, Sacrifício de Isaque (detalhe), 1603, óleo sobre tela, 104 x 135 cm, Galeria Uffizi, Florença, ItáliaNa manhã seguinte, Abraão levantou-se e preparou o seu jumento. Levou consigo dois de seus servos e Isaque, seu filho. Depois de cortar lenha para o holocausto, partiu em direção ao lugar que Deus lhe havia indicado. No terceiro dia de viagem, Abraão olhou e viu o lugar ao longe. Disse ele a seus servos: “Fiquem aqui com o jumento enquanto eu e o rapaz vamos até lá. Depois de adorarmos, voltaremos”. Abraão pegou a lenha para o holocausto e a colocou nos ombros de seu filho Isaque, e ele mesmo levou as brasas para o fogo, e a faca. E caminhando os dois juntos, Isaque disse a seu pai Abraão: “Meu pai!” “Sim, meu filho”, respondeu Abraão. Isaque perguntou: “As brasas e a lenha estão aqui, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Respondeu Abraão: “Deus mesmo há de prover o cordeiro para o holocausto, meu filho”. E os dois continuaram a caminhar juntos. Quando chegaram ao lugar que Deus lhe havia indicado, Abraão construiu um altar e sobre ele arrumou a lenha. Amarrou seu filho Isaque e o colocou sobre o altar, em cima da lenha. Então estendeu a mão e pegou a faca para sacrificar seu filho. Mas o Anjo do Senhor o chamou do céu: “Abraão! Abraão!” “Eis-me aqui”, respondeu ele. “Não toque no rapaz”, disse o Anjo. “Não lhe faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, o seu único filho.” Marc Chagall, O Sacrifício de Isaque (detalhe), 1960-1966, óleo sobre tela, 230 x 235 cm, Museu Nacional Mensagem Bíblica Marc Chagall, Nice, FrançaAbraão ergueu os olhos e viu um carneiro preso pelos chifres num arbusto. Foi lá pegá-lo, e o sacrificou como holocausto em lugar de seu filho. Abraão deu àquele lugar o nome de “O Senhor Proverá”. Por isso até hoje se diz: “No monte do Senhor se proverá”. Pela segunda vez o Anjo do Senhor chamou do céu a Abraão e disse: “Juro por mim mesmo”, declara o Senhor, “que por ter feito o que fez, não me negando seu filho, o seu único filho, esteja certo de que o abençoarei e farei seus descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Sua descendência conquistará as cidades dos que lhe forem inimigos e, por meio dela, todos os povos da terra serão abençoados, porque você me obedeceu”.

– Gênesis, cap. 22, v. 3-18 (Bíblia NVI, © SBI Brasil)

 

Outras representações do mesmo texto

Muitos outros artistas, inspirados pelo exemplo de fé de Abraão, representaram esteticamente a narrativa de Gênesis 22. Abaixo você pode apreciar apenas mais três dentre os inúmeros exemplos que poderíamos encontrar:

 

Rembrandt, "O Sacrifício de Abraão", 1635

Rembrandt van Rijn: ‘O Sacrifício de Abraão’, 1635

 

Sarcófago de Junio Basso (detalhe com o Sacrifício de Isaque)

Sarcófago de Junius Bassus, 359 d.C.

 

Frans Francken II (1581-1642): 'Paisagem com a Oferta de Abraão'

Frans Francken II (1581-1642): ‘Paisagem com a Oferta de Abraão’

 

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1 comment

Uma resposta

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  1. tiago vianna said, on 25/10/2009 at 22:09

    amei os comentários rosana… quem me apresentou o site de vcs foi o renato fontes… obrigado mesmo pela iniciativa de vcs!
    já estão nos meus favoritos!!!
    tiago vianna


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